quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ϕοῖνιξ (Continuação)

Parte 2


Foi à primeira vez.
Um sorriso curto saiu ao pensar que seria a primeira e a última ao mesmo tempo, se afogou um pouco como guri que traga o primeiro cigarro ofertado pelos avós no interior, mas ao aspirar à excitação foi quase instantânea. Já não tinha dúvidas, já sem medo, estava pronto para consumar o ato final dessa melodramática peça de mau gosto e tão comum, faltava abrir as cortinas do teatro, seguiu de modo firme, mas vagaroso como quem conta os passos para o duelo final até a janela e sentir pela última vez o ardor do sol em sua pele, olhando para baixo ele apenas viu os raios do chão, mas ao erguer os olhos o seu mundo parou.

O brilho do Sol como uma ϕοῖνιξ (fênix para os mais íntimos) invadiu os seus olhos e sua alma, a eternidade foi o tempo que demorou tudo, mas para uma criança sentada no meio fio em frente a sua residência que aguardava ansiosa a oportunidade de ser aceito na pelada de rua que foi a única testemunha visível do quê ocorreu só notou o tempo de flash que havia pensado ser o reflexo dos raios solares nos vidros da porta de acesso a sacada.

Inconscientemente ele observou tudo e a todos em todos os momentos desde momento Alpha de que nada existia, cada mísero suspiros dado em todo o universo até as maiores explosões de estrelas foram observadas, tudo que se passou até aquele instante e como as coisas seriam afetadas nos próximos nove meses após a sua morte, sim ele viu como se fosse a única pessoa presente ao seu próprio suicídio, foi o momento mais triste em toda a vida existente que ele observou, não importando as guerras todas que ele viu e cada pessoa que morreu nelas ou as mortes mais choradas e lamentadas de todas como a de Cristo e de seus próprios parentes, conheceu todos os segredos escondidos deste mundo, toda a miséria humana foi observada no bater de asas do tempo, aprendeu todas as línguas existentes com a observação das tantas crianças que viu crescer e morrerem como pó nas areias do tempo, observou cada momento de paixão de todas as mulheres, todas infelizmente, mas aprendeu algo na ultima cena vista. 


A sua jornada terminou junto ao seu tumulo esquecido e mal tratado já com o limo que crescia nas imperfeições do mármore frio e barato que era a única marca que registrava a todos o local que a sua decisão infeliz o levou, as flores mortas deitadas ao chão foram levadas por uma última lufada de ventos, e uma luz igual a vista por ele no início dessa jornada imortal se repetiu, e só após se acostumar com o brilho inigualável que nem ele tinha visto nas maiores estrelas desse universo, e conseguiu observar uma ave em chamas com todo o seu esplendor pousar por sobre a sua cova rasa, um grito estridente foi uma melodia incomparável ao personagem que observou todos os cantores da história de todos os povos viventes, humanoides ou não, e em chamas ela sucumbiu, uma lágrima correu de seu rosto, foi então que ele se deu conta que sua morte seria inevitável, mas o surgimento de uma flor de entre as cinzas do que restou da ave lhe fez renascer o gosto pela vida e a beleza das pétalas de fogo ciano, nunca antes imaginada em todas mentes criativas dos maiores pintores lhe deu a paz necessária.

O brilho do sol o fez rapidamente voltar seus olhos para algo mais próximo, e o menino ingênuo que com um sorriso para ele, era um gesto que não estava preparado, algo mudou ao ver aquele sorriso sincero e sem interesse, e a sua decisão irrevogável foi colocada por terra como se algo mais profundo tivesse acontecido ao ver aquele menino, e uma lágrima de vida correu pelos seus olhos que não eram mais janelas mortas e vazias, o telefone tocou, - "Alô, pai, como o Senhor está?" Era a sua filha Sophia, a conversa foi longa, foi como um reconciliar de uma vida toda, o alívio de retirar todo o peso mundo aos poucos de suas costas foi à tônica de seu amago, e ao lembrar-se da arma sobre a cama enquanto ouvia a doce voz de sua filha foi ponto final na maior vergonha de sua vida, teve vergonha e a jogou pela janela até esta cair dentro da fossa séptica que estava aberta e abandonada de cuidados há muitos meses. 


Depois de tudo que foi conversado ele se dirigiu ao banheiro e lavou o seu rosto que apesar das lágrimas que teimavam em não parar o que ele observou foi o antigo dono daquele corpo. Saindo a rua para respirar o ar da vida uma bolada de um dos meninos o acertou, todos os meninos pararam temendo a sua reação de velho rabugento que era de costume desde que perdera a sua vida, mas nenhum deles estava preparado para as embaixadinhas feitas de modo desajeitado devido ao longo tempo sem o toque em uma bola e com um olhar para aquele menino sentado que foi de pronto entendido como se fosse um grito, fez o pequenino correr e com uma cabeçada estourar o grito de gol, nos dois peitos jovens.

Escrita por Luiz Fábio da Cruz

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