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domingo, 10 de março de 2013
Cultura
Ele disse: "O teu sorriso é como o primeiro suave susto de Julieta
quando, das sombras perfumadas do jardim sob a janela insone, Romeu deu
voz ao sublime Bardo e a própria noite aguçou seus ouvidos.
E ela disse: "Corta essa."
E ele disse: "A tua modéstia é como o rubor que assoma à face de rústicas campônias acossadas num quadro de Bruegel, pai, enaltecendo seu rubicundo encanto e derrotando o próprio simular de recato que a natureza, ao
deflagrá-lo, quis."
E ela disse: "Cumé que é?"
E ele: "Eu te amo como jamais um homem amou, como o Amor mesmo, em seu auto-amor, jamais se considerou capaz de amar."
E ela: "T" sabendo..."
"Tu és a chuva e eu sou a terra; tu és ar e eu sou fogo; tu és estrume,
eu sou raiz."
"P"!"
"Desculpe. Esquece este último símile. Minha amada, minha vida. A
inspiração é tanta que transborda e me foge, eu estou bêbado de paixão,
o estilo tropeça no meio-fio, as frases caem do bolso..."
"Sei..."
"Os teus olhos são dois poços de águas claras onde brinca a luz da
manhã, minha amada. A tua fronte é como o muro de alabastro do tempo de
Zamaz-al-Kaad, onde os sábios iam roçar o nariz e pensar na Eternidade.
A tua boca é uma tâmara partida... Não, a tua boca é como um... um...
Péra só um pouquinho..."
"A tua boca, a tua boca, a tua boca... (Uma imagem, meu Deus!)"
"Que qui tem a minha boca?"
"A tua boca, a tua boca... Bom, vamos pular a boca. O teu pescoço é como o pescoço de Greta Garbo na famosa cena da nuca em Madame Walewska, com Charles Boyer, dirigido por Clawrence Brown, iluminado por...
“Ó escuta aqui...”
"Eu tremo! Eu desfaleço! Ela quer que eu a escute! Como se todo o meu
ser não fosse uma membrana que espera a sua voz para reverberar de amor, como se o céu não fosse a campana e o Sol o badalo desta sinfonia
espacial: uma palavra dela..."
"Ta ficando tarde.
"Sim, envelhecemos. O Tempo, soturno cocheiro deste carro fúnebre que é a Vida. Como disse Eliot, aliás, Yeats - ou foi Lampedu - sabe? -, o Tempo, esse surdo-mudo que nos leva às costas..."
"Vamos logo que hoje eu não posso ficar toda a noite."
"Vamos! Para o Congresso Carnal. O monstro de duas costas do Bardo, acima citado. Que nossos espíritos entrelaçados alcem vôo e fujam, e os sentidos libertos ergam o timão e insuflem as velas para a tormentosa viagem ao vórtice da existência humana, onde, que, a, e, o, um, como, quando, por que, sei lá..."
"Vem logo."
"Palavras, palavras..."
"Depressa!"
"Já vou. Ah, se com estas roupas eu pudesse despir tudo, civilização, educação, passado, história, nome, CPF, derme, epiderme... Uma união visceral, pâncreas e pâncreas, os dois corações se beijando através das grades das caixas torácicas como Glenn Ford e Diana Lynn em..."
"Vem. Assim. Isso. Acho que hoje vamos conseguir. Agora fica quieto e..."
“Já sei!”
"O quê? Volta aqui, p"..."
"Como um punhado de amoras na neve das estepes. A tua boca é como um
punhado de amoras na neve das estepes!"
Luís Fernando Veríssimo
sexta-feira, 8 de março de 2013
Duvidas e Certezas
Aos 20 anos as duvidas não cessam,mas temos uma capacidade de transformação incrível! E nenhum conhecimento dela. Nos sentimos imbatíveis, poderosos. Podemos tudo ou nada. Fazemos de tudo ou simplesmente nada. Buscamos verdades, temos crenças absolutas, corremos atrás de sonhos, temos esperanças demais... Somos curiosos, idealizadores, sonhadores, imaturos, brincalhões, apaixonados, sexuais, eternos e imortais.
Aos 30 anos, temos problemas que não foram resolvidos nos 20. Começam as novas dúvidas, e mais perguntas, e novos problemas,e mais e mais incertezas.As cobranças financeiras,emocionais,morais,as tentativas de acertos, seja casando,descasando, tendo filhos, comprando casa, carros, e bens cada vez mais materiais.
Aos 40 vem as certezas.Todas elas juntas.
A certeza de que nosso corpo envelhece.
Nossa mente desacelera.
Emoções que nos tragam como redemoinhos de água.
Que prédios caem em nossas cabeças.
Que heróis de vinte e poucos anos apanham,na defesa de fracos e oprimidos, de pessoas que deveriam ser seres humanos, mas em algum ponto da vida de transformaram em monstros mascarados de gente.
Que estrelas intocáveis que encantaram e cantaram uma geração inteira, também morrem, por problemas de coração, ou pelas drogas.
Que o ruim pode se tornar bom, e vice versa.
Que choramos de barriga cheia, enquanto muitos sorriem de barriga vazia.
Que nem todas as escolhas que fizemos foram as corretas,mas necessárias.
Que temos a obrigação de escolher quem anda do nosso lado porque queremos qualidade, não mais quantidade.
Que às vezes escolhemos o caminho mais difícil, mas no fim tudo acaba bem. Pelo menos ao final de cada dia,e olha lá, a gente continua por aqui.
Que não temos tudo que queremos,mas temos tudo que precisamos.
Que vamos ter que nos despedir de nossos queridos, porque a hora da partida tarda,ou vem cedo demais,mas jamais falha!
Que estamos caminhando para O The End, O Grand Final... e a espera de respostas que não temos, mas concluímos com a nossa vã filosofia diária e nossa pouca inteligência.
Precisamos de uma vida inteira para aprender, para valorizar coisas que deveríamos saber desde que nascemos, uma delas, a única e verdadeira, forma de amar.
Passamos a vida inteira construindo coisas, criando e adquirindo pessoas, comprando e vendendo, buscando e perdendo, para chegar ao fim em algum canto qualquer, hora qualquer, lugar nenhum... e o pior de tudo,sem saber para onde vamos.
Então o dia passa, a gente o vive da maneira que tem de viver, deitamos a cabeça no travesseiro e pensamos.... Foi bom? Valeu a pena?
Claro que sim. Nem sempre foi bom, nem sempre foi ruim.
Tudo valeu a pena! Tudo vale a pena!
E tem uma frase curta que cabe em qualquer idade, qualquer questão, duvida ou certeza, momento lindo ou aterrorizante:
"Isso logo passa!"
Mas eu espero, que eu e você, possamos ficar, guardados em algum canto na memória de alguns por termos feito a coisa certa, de boa vontade, com bondade, com verdade e com amor.
Emiliana Vaz
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